Hoje assisti ao filme CORINGA, indicação de uma amiga. Fui com resistência, porque não sou fã de “ficção”, mas tive uma grata surpresa, pois a trama nos traz uma reflexão muito interessante sobre – A CONSTRUÇÃO de um “VILÃO”. Até então, “nós” nos identificamos com os heróis, porém, depende aqui, de que “NÓS” eu estou falando, uma vez que me trago como referência – Homem branco de bairro nobre e relativo poder aquisitivo. O estereótipo da maioria dos mocinhos.

Inicialmente, pensei que o filme representasse a ficção do universo dos quadrinhos, mas estava enganado, pois me dei conta de que se tratava da nossa triste realidade social. A verdade de uma esmagadora maioria que vive à margem da sociedade, esquecida como um fantasma social.

Mediante reflexão, fiz analogia do filme ao falecimento de Augusto Liberato, conhecido por nós como Gugu, devido a sua vasta vida pública nos entretendo com sua programação nas tardes de domingo etc. Diante de um acontecimento trágico, presenciamos nas mídias essa semana, muitas manifestações consternadas, por termos perdido um homem talentoso, relativamente jovem (60), pai de família e com uma carreira brilhante que lhe rendeu muito destaque e uma vida abundante.

De fato, Gugu foi um grande homem, excelente profissional e muito carismático, cujo ocorrido nos comove, por se tratar de uma VIDA conhecida. Porém, diariamente perdemos inúmeros pais de famílias, com uma vida não tão glamorosa, mas que também são pessoas do bem e que deixam saudades para os que ficam. Talvez estes façam uma falta ainda mais dolorosa aos seus, pois muitas vezes são os únicos provedores de uma família pobre que habita na periferia.

No filme assim como na nossa realidade, a violência só repercute na cidade, quando homens engravatados, são assassinados. Outras perdas não geram tanta comoção, porque a maioria não carrega consigo “A CAPA DO SUPER HERÓI”. Ou seja, a pele branca, os olhos claros e a carreira bem-sucedida que nos atribui status e o título de NOTORIEDADE, uma vez que só poucos são NOTADOS, enquanto a grande maioria passa DESPERCEBIDA.

O filme do Coringa, é um verdadeiro tapa na cara da sociedade. Apesar de eu ser Psicólogo e analisar o sujeito no seu aspecto biopsicossocial, vou abster-me aqui da análise do fator patológico do personagem, para concentrar-me no contexto ao qual ele estava inserido. Que envolve uma assistência social precária, uma estrutura familiar complexa, muito preconceito, baixo poder aquisitivo, descaso governamental dentre outros.

Não quero defender uma teoria absolutista de que o “homem” seja 100% fruto do meio, mas o filme mostra o poder que tal influência exerce na vida das pessoas e de certa forma nos faz repensar se existe de fato um herói e um algoz na trama do Batman versus Coringa. Ou seja, até então, conhecíamos a triste história de Bruce Wayne, um menino órfão de pais, vítima da violência urbana, que na sua fase adulta decide travar uma batalha contra os seus arquirrivais do “mal”. Figura esta, branca, rica, bonita etc.

Já o Coringa conhecido por “NÓS” como vilão, no final do filme, tornou-se herói sob o olhar de uma grande maioria que se identifica com a mesma dor e humilhação, o mesmo descaso e as inúmeras batalhas do dia-a-dia. O autor do filme, nos apresenta uma nova perspectiva. Pois assim como o Batman, o Coringa também se constrói e se vinga – por se sentir MORTO em VIDA (vítima/órfão/invisível). Ele se revolta e devolve ao mundo, a violência que sempre recebeu, se fazendo visto.

Não creio que possamos chegar a tanto, em que os meios possam vir a justificar os fins, vice-versa. Nem posso compactuar com a violência de qualquer tipo de natureza. Mas fica o alerta de que, lutar por uma sociedade mais justa e menos preconceituosa, fará grande diferença na diminuição da violência. Temos que aprender a respeitar cada vez mais as diferenças. Valorizar o humano acima do seu status, etnia, sexualidade e aparência.

Não sei qual é a reflexão e lição que cada um retira do enredo desse filme. Mas, imagino que, no mínimo, de agora em diante, muitos possam enxergar a luta do Batman e do Coringa, como um confronto entre duas VÍTIMAS. Até porque, muitos vilões um dia já foram vítimas. Muitos que erraram, um dia já quiseram acertar e se sentirem aceitos.

Por isso, vamos evitar o descaso, o preconceito e tudo mais que possa vir a restringir a vontade do outro de existir, ser visto, reconhecido e encontrar significado e propósito para sua existência. Afinal, ninguém nasce querendo SER o Coringa, apenas pode se TORNAR após alguns percalços na vida.

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Márcio Vaz
Palestrante, Psicólogo, Coach e Escritor.
www.marciovaz.net

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